domingo, 21 de julho de 2013

O mito da presidente workaholic.

Ao longo dos últimos dois anos, os propagandistas de Dilma Rousseff construíram vários figurinos, todos fracassados pela dura realidade dos fatos. O último foi o da presidente workaholic. Trabalharia diuturnamente, seria superexigente, realizaria constantes reuniões com os ministros, analisaria detidamente os projetos e cobraria impiedosamente resultados. Porém, os dados oficiais da sua agenda, disponibilizados na internet, provam justamente o contrário.
Em agosto despachou com 17 ministros. Um terço deles, apenas uma vez (como Aldo Rebelo e Celso Amorim). Deu preferência a Paulo Sérgio Passos, Gleisi Hoffman e especialmente a Guido Mantega, recebido 9 vezes. Se a a maioria deles não teve um minuto de atenção da presidente, o mesmo não se aplica a Rui Falcão, presidente do PT, e até ao presidente da UNE, Daniel Iliescu, que foram ouvidos a 9 e 22 de agosto, respectivamente.
Dilma pouco se deslocou de Brasília. Numa delas foi a São Paulo, no dia 6. Saiu às 11h30m direto para o escritório da Presidência da República na capital paulista, à época ainda sob a responsabilidade de Rosemary Noronha. Dilma foi se encontrar com Lula. Passaram horas discutindo política. Às 18h40m, retornou a Brasília. Foi a única atividade do dia.
Em setembro recebeu 14 ministros. Os mais assíduos foram os que despacham no Palácio do Planalto (Miriam Belchior, Gleisi Hoffman e Ideli Salvatti; as duas últimas, quatro vezes, e a primeira, três) e Aldo Rebelo (Esportes), três vezes. Uma sequência de 12 dias com pouquíssima atividade chama a atenção. No dia 5 recebeu um ministro (Edison Lobão) às 9h e não há mais qualquer registro. No dia seguinte trabalhou das 10h às 12h. E só. No feriado compareceu ao tradicional desfile. Na segunda-feira, dia 10, só registrou duas audiências, uma às 10h e outra às 15h.
Dois dias depois, foi uma espécie de “quarta maluca”. A presidente teve apenas dois compromissos e nenhum administrativo: às 15h, recebeu o presidente do PCdoB, “o partido do socialismo”, Renato Rabelo, e uma hora depois, mostrando o amplo arco de apoio do governo ─ e haja arco! ─, o megaempresário Jorge Gerdau. E mais nada. No dia seguinte compareceu à posse de um ministro e ao lançamento de um programa de incentivo do esporte de alto rendimento. Na sexta-feira (14), anotou na agenda às 10h um despacho interno e rumou, no início da tarde, para Porto Alegre, onde permaneceu o fim de semana e a segunda-feira ─ neste dia visitando dois estaleiros.
Nada mudou em outubro. Despachou com 19 ministros. Fez uma breve viagem ao Peru, visitou São Luís e São Paulo (duas vezes: uma delas novamente ao escritório da Presidência da República e para mais um encontro com Lula). Se muitos ministros, em três meses, não foram recebidos pela presidente, o mesmo não ocorreu com Renato Rabelo. O presidente do PCdoB teve mais uma audiência, a segunda em dois meses. Dilma teve tempo para ouvir Fernando Haddad, prefeito eleito de São Paulo, no dia 29, e, dois dias depois, o de Goiânia. Ambos do PT. Curiosamente a agenda não registrou ─ caso único ─ onde a presidente esteve nos dias 27 e 28, fim de semana.
Dilma manteve em novembro sua estranha rotina de trabalho. Recebeu 15 ministros. Dois pela primeira vez, nos últimos 4 meses: Paulo Bernardo e Antonio Patriota. Concedeu duas audiências a prefeitos eleitos: de Niterói, Rodrigo Neves, do PT; e Curitiba, Gustavo Fruet, do PDT e apoiado pelo PT. Fez uma longa viagem à Espanha e uma breve à Argentina. Mas três dias se destacam pelas curiosas prioridades: 21, 22 e 23. Na quarta-feira (21), a presidente não recebeu nenhum ministro e não efetuou qualquer despacho administrativo. Dedicou o dia a José Sarney, Gim Argello, Eduardo Braga e ao seu vice-presidente, Michel Temer.
Como ninguém é de ferro, à noite assistiu o filme “O palhaço”. No dia seguinte, a agenda registrou três compromissos, um só com ministro (o dos Portos), a posse do presidente e vice-presidente do STF e um encontro com a apresentadora Regina Casé. E na sexta-feira? Somente duas audiências e no período da tarde.
Dilma incorporou o péssimo hábito de que o mês de dezembro é “de festas”. Fez duas viagens ao exterior (França e Rússia) e despachou com apenas 9 ministros. Antecipou o réveillon para o dia 28, suspendendo as atividades por 13 dias, até 9 de janeiro.
Iniciou o novo ano com a mesma disposição do anterior: pouquíssimos despachos, audiências ou reuniões de trabalho. Em janeiro, despachou com 11 ministros. Lobão foi o recordista: quatro vezes. E, por incrível que pareça, e sempre de acordo com a agenda oficial, concedeu pela primeira vez em um semestre uma audiência para o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Melhor sorte teve o ex-jornalista Franklin Martins: esteve duas vezes, em apenas quatro meses, com Dilma.
Nesse semestre (agosto de 2012/janeiro de 2013), nove ministros ─ cerca de um quarto do ministério ─ nunca foram recebidos pela presidente: Marcelo Crivella, Aguinaldo Ribeiro, Garibaldi Alves Filho, Brizola Neto, Gastão Vieira, Maria do Rosário, Eleonora Menicucci, José Elito e Alexandre Tombini (presidente do Banco Central, mas com status de ministro).
Outros não mais que uma vez. Uma reunião entre a presidente e alguns ministros de áreas correlatas nunca foi realizada. Em alguns dias (como a 16 de janeiro), não concedeu nenhuma audiência e nem efetuou despachos internos. Pior ocorreu duas semanas depois, a 30 de janeiro, uma quarta-feira: está sem nenhum compromisso. É uma agenda de uma workaholic?

A agenda de trabalho do presidente Lula.

A agenda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está disponível no site www.planalto.gov.br. Qualquer cidadão pode confirmar os dados apresentados por mim no artigo publicado por esta Folha em 24 de abril (“Os trabalhos e os dias”, pág. A3). A resposta de Gilberto Carvalho, chefe-de-gabinete do presidente (“851 dias de muito trabalho, sim senhor”, pág. A3, 3/5), reforça o que escrevi. Lula não tem interesse pelas atividades administrativas, cerne de qualquer governo, preferindo as cerimônias públicas, no Brasil e no exterior. Somente em viagens ao exterior -47, até hoje- o presidente passou quase quatro meses perambulando por quatro continentes. É fato inédito e tem toda a razão o senhor Carvalho. Mas isso até parece recorde do “Guiness Book”: nada representa.

A agenda de Lula revela a busca da popularidade fácil, adquirida com base na simpatia e no paternalismo

Nenhum dos dados que apresentei foi contestado e, certamente, eles foram checados pelas dezenas de assessores palacianos. Somente um foi negado: a audiência ao presidente do Clube do Choro de Brasília. Realmente foi o vice-presidente da República quem o recebeu. Nesse dia, a agenda presidencial omitiu as atividades em Monterrey.
Não é preciso estar no Palácio do Planalto e perguntar para os funcionários e jornalistas, como sugere Carvalho, para chegar à conclusão de que a agenda é reveladora de um estilo de governo. No dia 21 de abril de 2004, Lula recebeu o animador Ratinho, às 11h, para um almoço-entrevista. A próxima atividade estava marcada para às 17h20. Portanto permaneceu por quase seis horas com o seu amigo pessoal para uma entrevista que nem sequer foi exibida. Enquanto isso, concedeu meia hora ao ministro Ciro Gomes, no dia 19 de maio do mesmo ano, apesar de a agenda ter, segundo Carvalho, “um planejamento cuidadoso” e ser organizada por um grupo de assessores -e isto, convenhamos, é o que não falta no Palácio.
A agenda revela a busca da popularidade fácil, adquirida com base na simpatia e no paternalismo, mantendo a velha tradição brasileira: é a cultura política da casa-grande.
O presidente encontrou-se com moradores de rua a 23 de dezembro de 2003 (das 15h40 às 16h). Porém, para o senhor Carvalho, Lula “celebrou o Natal” com eles. Não seria mais eficaz estabelecer políticas públicas para enfrentar esse grave problema? Ou os 20 minutos com os moradores de rua já bastam?
O chefe-de-gabinete exige rigor do historiador. Tem razão. Todos os dados que citei têm origem oficial. Ele é que não é muito rigoroso. Diz que a assessoria usa um modelo de trabalho com base na experiência de quatro presidências e inclui a Inglaterra. Inglaterra? Fala que em muitos dias o trabalho do presidente no Planalto vai até as 22h. Dos 805 dias pesquisados, em nenhum deles, nenhum mesmo, o presidente esteve no Palácio até esse horário. Pelo contrário, em inúmeros dias Lula começa o trabalho às 10h e termina o expediente no meio da tarde.
O chefe-de-gabinete fala em preconceito. É inadmissível blindar qualquer crítica ao trabalho de Lula com essa pecha. A ausência de uma agenda efetivamente presidencial não tem nenhuma relação com sua escolaridade. A discussão é no campo da política, e não da moral. É para um tipo de gestão que se manifesta de forma cristalina numa agenda caótica.
Mas, se a agenda é pobre, o site da Presidência é rico em propaganda oficial. Nas duas páginas disponibilizadas na internet, Lula é chamado de “carismático dirigente” e teria liderado a campanha pelo impeachment de Fernando Collor; ou seja, a mobilização da sociedade civil não passou de um movimento conduzido por ele. No final da apoteótica biografia, ficamos sabendo que o “presidente Lula e sua equipe de governo deram início a uma série de transformações estruturais que encaminharam o país para se encontrar com seu promissor destino”. É uma espécie de destino manifesto petista, que seria até bom, se fosse verdade. Onde estão as transformações estruturais?
É intolerável aceitar que o site da Presidência da República se transforme em instrumento de propaganda, independentemente de ser do PT, do PSDB ou do PFL. Lula não é presidente do PT, mas é presidente do Brasil. O site não é do PT, mas da Presidência da República. Espera-se que uma agenda presidencial tenha outro conteúdo. Por exemplo, que dê atenção aos índios. Quantos não morreram de fome no Mato Grosso do Sul? O que o governo fez? Ou será que bastou o lançamento, com presença de Lula, da ONG Fome Zero no hotel Unique, um cinco estrelas dos Jardins, em São Paulo, em 8 de julho de 2003, para resolver o problema da fome?
Roraima vive uma guerra civil. O que o governo fez? A agenda é praticamente omissa no tratamento da questão.
Nunca a floresta amazônica foi tão destruída? A agenda mostra que a ministra Marina Silva raras vezes esteve com o presidente.
Nas metrópoles o desemprego continua assolando milhões de trabalhadores. E os dez milhões de empregos prometidos na campanha? E o caos na saúde, estradas, moradia?
O senhor Carvalho tem toda a razão, nunca “um governo abriu tanto sua agenda para um diálogo com o setor produtivo do país”. Para Lula, o importante é dar atenção ao setor produtivo, aos empresários. Já o “andar de baixo” serve só para ser eleitor e aguarda não se sabe até quando para ser cidadão.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Dia Mundial de Luta: Sindicatos, UNE, e MST não represetam mais ninguém.

Adaptado/Roubado do Adolfo.

É amigos, o peleguismo está em baixa  A manifestação oficialista serviu apenas para mostrar uma coisa: os sindicatos, essas máfias retrógradas, estão indo para o brejo.

Mas qual foi a principal lição a ser tirada do Dia Mundial de Luta? Simples: sindicatos, UNE, e MST não representam ninguém. Notem bem, estamos falando das principais centrais sindicais desse pais, estamos falando da UNE e do MST, juntos não juntaram nem 1.000 pessoas em Brasília, perto de 5.000 no Rio de Janeiro, e menos ainda em São Paulo.

Sindicatos, UNE e MST tiveram tempo para se organizar. E o resultado foi um tremendo mico: praticamente ninguém apareceu em resposta a convocação desses grupos. O PT que amplamente apoiou o evento também mostrou que não reúne mais que um punhado de gatos pingados. A rigor, as manifestações só foram notícia pois interditaram rodovias e vias importantes (o que é um absurdo). No Rio de Janeiro, a notícia foi mais a confusão do que o número de participantes.


A torcida do
Sampaio Corrêa Futebol Clube reúne mais gente que esses movimentos todos. Sindicatos não representam mais os trabalhadores, a UNE não representa mais os estudantes, o MST não representa (e nunca representou) os trabalhadores do campo, e o PT deixou de representar há muito tempo (se é que algum dia representou) os anseios de parte dos brasileiros.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

ECA, o Estatuto de Proteção dos Jovens Criminosos.

Em artigo publicado recentemente na Gazeta do Povo (Curitiba), José Maria e Silva apresenta bons argumentos contra esse nefasto Estatuto da Criança e do Adolescente, que protege mais os delinquentes que as crianças. O ECA é, simplesmente, garantia de impunidade de bandidos perversos, cujos crimes, em geral, são hediondos:
Historicamente, as leis brasileiras não nascem de necessidades da nação, mas de modismos importados. O escritor José de Alencar (1829-1877) e o ensaísta Eduardo Prado (1860-1901) já denunciavam o bacharelismo para inglês ver, que, tentando impressionar a Europa, impunha ao país nocivas leis vanguardistas. Esse mal se agravou com as universidades. Hoje, o Brasil é uma espécie de protetorado da ONU, adotando, como leis nacionais, suas mais utópicas resoluções.
Uma delas é o Estatuto da Criança e do Adolescente, versão nacional das resoluções da ONU sobre direitos das crianças, rechaçadas nos próprios países de origem. A Suíça, sede europeia da ONU, contraria frontalmente as recomendações do órgão ao instituir a maioridade penal aos 7 anos e armar todos os seus cidadãos. Menores de 18 anos também são responsabilizados penalmente na Austrália (7 anos), Escócia (8), Inglaterra (10), Holanda (12), Canadá (12), França (13), Israel (13), Áustria (14) e Estados Unidos (10 anos ou 12 anos).
Como observa o psicólogo Steven Pinker, a natureza humana não é uma tábula rasa a ser modelada por engenheiros sociais. Um menino-prodígio do crime que estupra, mata ou queima sua vítima não será regenerado à custa de três anos de lenientes medidas socioeducativas. Pelo contrário: com a experiência de vida, a precocidade criminosa desse Mozart do mal vai se tornar ainda mais astuciosa e, consequentemente, mais letal.
A natureza é sábia: a força física que possibilita matar o próximo cresce junto com a consciência de que não se deve fazê-lo. A percepção da morte, segundo a psicologia, começa a se formar aos 3 anos e, aos 9 anos, já está consolidada na criança. Nessa idade, ela já tem plena consciência de que matar o próximo é errado. Por isso, a responsabilidade penal deve ser de acordo com a gravidade do crime. Só para o ECA um menor nunca é assassino: apenas comete um “ato infracional análogo a homicídio”, produzindo pessoa análoga a defunto, mesmo depois que já pode votar.
José Maria e Silva, jornalista, é mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás (UFG), com dissertação sobre violência nas escolas.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Decálogo da crise na saúde.

1. A proposta apresentada é apressada e feita simplesmente para dar uma resposta – qualquer resposta – às ruas;

2. O governo teve de abandonar a opção cubana. Só agora descobriu que dos 4 mil dólares mensais recebidos por cada profissional, o médico ficava com apenas 40. O restante ia para o governo cubano. É trabalho escravo sob a capa de “solidariedade latinoamericana”. Fracassou a tentativa de injetar mais recursos brasileiros para o combalida ditadura dos irmãos Castro;

3. O problema não é a falta de médicos, mas as péssimas condições de trabalho (sem prédios adequados, equipamentos, locais para exames, falta de enfermeiros, etc) e baixos salários;

4. Criar um curso de Medicina não se faz da noite para o dia. E temos cursos em número suficiente. O problema é que o Ministro da Educação está tão por fora dos assuntos da sua pasta – hoje é o grande conselheiro de Dilma -, que sequer pediu estudos sobre os pré-requisitos necessários para criar um curso de Medicina;

5. Obrigar a prestação de serviço no SUS não passa de uma proposta irresponsável, populista no pior sentido da palavra. E não distingue, neste “serviço civil obrigatório”, o estudante de uma faculdade pública daquele que pagou seus estudos em uma faculdade privada;

6. O número de médicos por mil habitantes não é baixo. E se o problema imediato é aumentar o número de formandos, seria o caso então de aumentar o número de vagas, de forma responsável, nos cursos já existentes;

7. Ouvir as entidades médicas, antes de apresentar o “plano”, seria o mínimo. Porém o governo quer criar, como de hábito, factoides. A questão da saúde é secundária; o que interessa é a eleição de 2014 e a reeleição de Dilma (ou o retorno de Lula);

8. O governo quer empurrar a “batata quente” da crise na saúde para os médicos, tachados de desumanos, elitistas;

9. O “plano” não tem, nem de longe, o objetivo de enfrentar o caos na saúde. Foi apresentado para tentar catapultar a candidatura de Alexandre Padilha para o governo de São Paulo;

10. O que esperar de um governo que tem Aloizio Mercadante como principal articulador político?

sexta-feira, 12 de abril de 2013